sábado, 18 de setembro de 2010
Até quando?
segunda-feira, 9 de março de 2009
O EXILADO (DA LINDA PÁTRIA)
O EXILADO (DA LINDA PÁTRIA)
Da linda pátria estou bem longe;
Cansado estou;
Eu tenho de Jesus saudade,
Oh, quando é que eu vou?
Passarinhos, belas flores,
Querem m'encantar;
São vãos terrestres esplendores,
Mas contemplo o meu lar.
Jesus me deu a Sua promessa;
Me vem buscar;
Meu coração está com pressa,
Eu quero já voar.
Meus pecados foram muitos,
Mui culpado sou;
Porém, Seu sangue põe-me limpo;
Eu para pátria vou.
Qual filho de seu lar saudoso,
Eu quero ir;
Qual passarinho para o ninho,
Pra os braços Seus fugir;
É fiel - Sua vinda é certa,
Quando... Eu não sei.
Mas Ele manda estar alerta;
Do exílio voltarei.
Sua vinda aguardo eu cantando;
Meu lar no céu;
Seus passos hei de ouvir soando
Além do escuro véu.
Passarinhos, belas flores,
Querem m'encantar;
São vãos terrestres esplendores,
Mas contemplo o meu lar.
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Não sei como minha maninha conseguiu, mas ela cantou esse hino no culto fúnebre do meu velho e saudoso pai. Eu só chorava, e continuo chorando toda vez que o ouço. A mensagem é linda e nos fala da 'saudade' de estar com Jesus, mas não consigo me controlar, e na verdade, nem faço nenhum esforço pra isso..., deixo acontecer. Depois, é como se eu tivesse sido lavado e me sinto mais leve. Não sei explicar melhor!
sábado, 20 de dezembro de 2008
ESBOÇO DE UMA VIDA - Parte 11

A nossa curiosidade foi satisfeita quanto ao que sucedera. De tempos em tempos o Seminário Presbiteriano de Campinas promovia uma campanha pró-vocações. Recentemente o Rev. Jorge Goulart, Deão do seminário e primo de minha mãe Ninita, passara por Barretos e estivera conosco, quando tomou conhecimento dos obstáculos que enfrentávamos, quanto à continuidade dos meus estudos. Não fizera ele, na ocasião, nenhum maior comentário, mas, assim que chegou a São José do Rio Preto ele comentou com o Rev. Armando que tinha um “sobrinho”, aspirante ao Santo Ministério, sem recursos para continuar os estudos, o que é que o Presbitério de Araraquara poderia fazer a respeito? Rev. Armando respondeu: quanto ao Presbitério, é cedo para afirmar qualquer coisa, porém, quanto a mim já me decidi, vou trazer o Milburges para São José do Rio Preto.
Ato contínuo matriculou-me na primeira série do curso clássico; aguardava a documentação de praxe para que a mesma se efetivasse. Meu pai e eu fomos para Rio Preto levar os documentos exigidos, para a efetivação da matrícula. Papai retornou a Barretos e eu permaneci, bastante constrangido é verdade, pelo fato de todos me serem desconhecidos. A minha insegurança aumentava, por causa da ansiedade que me dominava. A dona da casa estava viajando com os filhos, aproveitando os últimos dias de férias na cidade de Campinas na casa do pai, o Sr. Germano. Dona Dalila (assim se chamava a esposa do Rev. Amorim), não demorou a retornar, acompanhada de seus quatro filhos: Gilmar (o mais velho, eu o conhecera num congresso da mocidade na cidade de São Carlos, em 1946), Cleomar (a única menina), Edenar e Osmar (o caçula). Imagine-se a surpresa de D. Dalila ao chegar e ser apresentada, segundo as palavras do esposo, ao “novo filho”. A reação não foi nada calorosa, e eu mais encabulado fiquei.
O Rev. Teófilo Carnier pastor da I Igreja de Barretos e encarregado dos atos pastorais junto à Congregação do Frigorífico, tornara-se um bom e grande amigo de meus pais. Fizera ele uma observação preocupante, a respeito de D. Dalila Germano Amorim. Talvez por descender de uma família financeiramente muito bem sucedida, não se acostumara ainda à frugalidade da vida de esposa de pastor pobre, que de grande tinha sua avantajada estrutura física, e um coração tão grande e generoso, quanto ao seu “peito avantajado”, onde lhe pulsava um grande coração. Coração de Pastor!
Tudo acabara por cair no ritmo da normalidade do habitual. Integrado no saio da família, no seio da Família da Fé, a vida estudantil correndo bem. De repente, o susto explodiu como bomba, eu nascera em 1928, portanto em 1948 eu tinha a idade para o obrigatório serviço militar. Esquecêramos totalmente do alistamento competente e, agora, via-me na contingência de perder de não poder matricular-me no Tiro de Guerra, e ter que incorporar-me ao serviço militar, em regime de caserna, de exército. Seria mais uma interrupção no processo de preparação para o seminário.
Entrou, então, em cena o amado presbítero, o médico Dr. Alípio Benedito Cerqueira de Castilho, major médico, reformado do exército. Apadrinhou-me e usando sua influência junto à direção do Tiro de Guerra, conseguiu que eu fosse, finalmente, matriculado no Tiro de Guerra.
O tempo tinha que ser dividido entre o colégio e o Tiro de Guerra. A fim de poupar meu pai do dinheiro que remetia para pagar lavanderia e passadeira, resolvi, eu mesmo, lavar e passar a minha roupa, inclusive o uniforme do colégio e a farda do TG. Pela manhã eu lavava a roupa, após o almoço, aulas. Como a instrução no TG tinha inicio às 18h00, eu saia do colégio, às 17h00, chegava em casa, pegava a farda no varal, mais dura e ressequida que couro. Passava, vestia e seguia para o TG. As outras peças de roupa ficavam sobre a cama, à espera do meu retorno, quando eu passava tudo. Não era muita coisa. O meu guarda-roupa era escasso, bem escasso. Tanto assim que naquele tempo era comum o uso de suspensórios. Eu não fugia à regra. Algo, hilário, acontecia toda semana. Duas calças caqui, do uniforme do colégio, tinham o cós alto porque se usava suspensório. Quando lavava uma das calças, precisava mudar os botões dos suspensórios para a outra calça. Por muito tempo vinha repetindo esta providência, até que, D. Dalila, agora minha amiga, trocou definitivamente aqueles botões, como, também, entregou minha roupa e a “bendita” farda aos cuidados de sua lavadeira e passadeira. Aleluia!
A Junta de Missões Nacionais entregara ao Presbitério os campos de Mirassol, José Bonifácio, Tanabi e Votuporanga. Coube ao Rev. Armando Amorim como Secretário Permanente (executivo), coordenar a assistência ao campo. A partir daí fui aproveitado com freqüência nos trabalhos, pelo campo todo. De sorte que visitava a Congregação de Mirassol, a de José Bonifácio, a de Tanabi, e pontos de pregação. Pelo fato de receber uma gratificação, pequena, pela colaboração, deu-me mais tranqüilidade no desfrutar da hospitalidade do Pastor.
Como as instruções do TG aos domingos iam das 7h00 às 11h00, eu freqüentava a Escola Dominical na Igreja Presbiteriana Independente cujo Pastor era o Rev. Rubens Cintra Damião, meu professor de Grego e de Inglês. Tive, assim, a oportunidade de cooperar com a IPI, lecionando para a mocidade na ED e esporadicamente, dirigindo os estudos bíblicos semanais, e substituindo o Pastor no púlpito, quando solicitado.
Apesar das muitas lutas, de momentos de desânimo, fui ricamente abençoado durante a permanência em São José do Rio Preto (1948). Porque fui amadurecendo em minhas experiências de jovem cristão, como também, definindo com mais objetividade o alvo primário da minha vida. Lembro-me hoje, até com saudade, dos sacrifícios do tempo do TG e do Sgt. Darwia Villar da Costa, um paranaense de maus bofes, que afirmava não gosta de estudantes e de “crentes”.
As Igrejas Presbiterianas e Presbiterianas Independentes, praticamente me adotaram. A generosidade dos irmãos da SAF supriu-me naquilo que me faltava, porém, especialmente o carinho, a amizade e a consideração, para com aquele estudante magricela, mineiro de calcanhar rachado (como se dizia em Minas). Como eu tinha muitos compromissos, tinha uma dificuldade... Não tinha relógio. O Rev. Rubens apresentou-me ao irmão Sr. Scarânio, Presbítero da IPI, e dono de uma relojoaria de porte, para que me vendesse à prazo um relógio. Escolhido o relógio, fiquei todo feliz, pois pela primeira vez tinha um relógio, ao pulso. Por ocasião do meu retorno para casa, fui conversar com o Presb. Scarânio obre o relógio. O Rev. Rubens, para não me constranger, me encaminhara ao irmão Scarânio, mas não me dissera que já havia pagado o relógio (de marca Royce).
Após o TG e em gozo de férias após o primeiro clássico, retornei a família, ainda no Frigorífico Anglo (Barretos). E aí, novamente nos deparamos com os Caminhos da Providência. O Sr. Benedito comprador do sítio de Jaboticabal estava tendo dificuldade no pagamento. Então meu pai e meu avô, com o espírito cristão que os animava, propuseram ao irmão Sr. Benedito a devolução da propriedade, o que evitaria maiores constrangimentos para as partes, e menor prejuízo para meu avô. Pois, por falta de dinheiro, o carrinho e o animal foram vendidos, fato que limitaria muito a comercialização de produtos do sítio, como fazia de primeiro. Nosso irmão hesitou em aceitar a proposta, pois reconhecera que fizera um mau negócio, e queria, o quanto antes voltar para o meio da sua parentela, para os lados de Tietê.
Posto isto, eis-nos de novo, meus avós e eu, e de novo a “tia Galdina” no sítio de Jaboticabal. O segundo clássico seria cursado no Colégio Estadual, onde eu concluiria o curso ginasial, com uma série de novas dificuldades em 1949. O fato, porém, de retornarmos ao convívio antigo com os amados irmãos que ali deixáramos, foi gratificante.
Os acontecimentos de 1949 serão assuntos para: Caminhos da Providência V.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
FÉRIAS 2008 DATELL
Saímos de Rio Verde na terça dia 15 de julho às 16h. Às 6h da quarta estávamos em Santos. Deixei meu mano em sua casa com minha cunhadinha e seus pais. Demos entrada no Hotel Caravelas que fica a 20m da praia José Menino, ali, no canal 1. Muito aconchegante, o pessoal simpático, acolhedor e o café da manhã gostoso. Sentimos-nos muito bem ali.
Chegamos em Ubatuba pelas 13h e achamos uma pousada muito ajeitada. É a pousada Pousada das Artes da D. Arlete. O casal Francisco e Cristina é que são os responsáveis para manter tudo funcionando. A pousada é muito gostosa, são oito suítes temáticas, e cada uma representa um país. Ficamos com a da Grécia. Na sala da recepção fica uma garrafa de café, mas que não é só café, é café com leite. Eu ainda não tinha visto isso, porque normalmente só tem café preto nessas garrafas térmicas. Uma idéia legal! A D. Arlete é uma tremenda artista plástica e cada canto da pousada tem uma arte sua que encanta.
domingo, 13 de julho de 2008
ESBOÇO DE UMA VIDA - parte 10
Vendido o sítio, nos transferimos todos para o Frigorífico.
O velho Zéca Coelho, pouco parou ali. Foi para Patos de Minas, passar uns tempos com o filho adotivo Pedro Coelho da Cunha, proprietário de um sítio, na Mata dos Fernandes, onde exercia a profissão de “dentista prático”, e desenvolvia um pequeno estabelecimento comercial no ponto de ônibus, o que lhes permitia oferecer aos passageiros: café, leite, quitandas e salgadinhos. Tia Clara, a esposa, era excelente quitandeira. Vovô se deliciava cultivando milho, mandioca e verduras. Ele não sabia ficar inativo.
As coisas, todavia, não se ajustaram muito bem a minha condição estudantil, que deveria, agora, ser desenvolvida no 2º grau, preferencialmente, no Curso Clássico, o mais indicado para quem planejava o Curso Teológico. Acontece que, Barretos, só oferecia o Científico, o Curso de Contabilidade e o Curso de Professor Normalista. Hoje, depois de tantos anos, sinto que na verdade, foi a precariedade das condições financeiras da família, o motivo que embaraçou as decisões a ser tomadas. Pois, o Seminário não tinha como, via de regra, obrigatoriedade pelo Curso Clássico. Apenas, que julgavam-no mais adequado. O que importava era ter-se concluído o 2º grau. Esta era a exigência.
Cabe aqui, em face desta preferência, uma pequena digressão. Como não era muito comum a existência do Clássico, na rede escolar estadual e nem particulares, foi criado em Jandira, subúrbio de São Paulo, o Instituto “José Manoel da Conceição”, o qual atendia não só aos candidatos ao ministério, mas a outros que não pretendiam o Ministério. O Colégio atendia não só a Igreja Presbiteriana do Brasil, mas também a Igreja Presbiteriana Independente. Os estudantes que demandavam aos seminários da IPB ou da IPI, iniciavam-se em algumas matérias do Teológico. Daí o Conceição ser considerado como um “Seminário Menor”. No meu caso, parece que como num ato falho, ninguém pensou nessa alternativa, que incluía, indispensavelmente, a co-participação da própria Igreja.
Posto isto, voltemos à realidade do ano de 1948. Entendendo, pessoalmente, o desgaste financeiro da família, e as preocupações com os novos encargos familiares, sugeri ao meu pai que eu gostaria de trabalhar aquele ano, a fim de compartilhar das lutas e necessidades, pressentidas. Surgiu uma vaga no escritório do Frigorífico Anglo, um funcionário estava de aviso prévio, reivindicando uma nomeação para funcionário do estado. Trabalhei por trinta dias, ao fim dos quais o funcionário retornou ao seu lugar, porque a sua nomeação não saíra. Senti-me frustrado, levando no bolso o salário recebido, fui para casa. Meus pais estavam em Barretos. Só tive minha avó e a “tia” Galdina para compartilhar a frustração daquele momento.
“Ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Rm. 16:27)
Não tive muito tempo para curtir minha frustração. Nós morávamos na Fazenda do Anglo, separada da Vila Pereira (bairro de Barretos), pelo ribeirão. O Patrono da Vila, o proprietário do loteamento, um português de nome Sr. Júlio Pereira, tinha, funcionando no seu armazém, um posto telefônico. Assim é que um seu empregado, foi até a nossa casa, para nos avisar que às 17:00h, daquele dia, alguém deveria estar presente no posto, para atender a um interurbano de São José do Rio Preto (região da araraquarense), Barretos ficava na região da Paulista.
Fiz-me presente às 17:00h no posto telefônico, e para minha surpresa, do outro lado da linha uma voz grave, sonora, comunicativa, ao saber quem do lado de cá estava a atende-lo, me disse: Então você é o Milburges Gonçalves Ribeiro, parente do Rev. Jorge Goulart? Pois bem, você já está matriculado no 1º Clássico, no Colégio Estadual de S. J. do Rio Preto, e vai residir em minha casa.
Como era hora da passagem do ônibus, Barretos-Frigorífico, e meus pais deveriam esta nele, eu o tomei nessa esperança, porque não me continha mais sem compartilhar toda a gama de sentimentos que me tumultuavam. Realmente, papai e mamãe lá estavam e ficaram admirados de me verem e com a cara espelhando uma emoção forte. Da Vila Pereira até nossa casa, foram dez minutos, insuficientes para colocar meus pais a par de tudo.
A perplexidade era grande, pois não entendíamos o que, de fato, acontecera.
terça-feira, 8 de julho de 2008
QUANDO EU CRESCER, QUERO SER POLICIAL!

quarta-feira, 2 de julho de 2008
ESBOÇO DE UMA VIDA - parte 9
Como meus pais queriam se despedir dos parentes em Araguari, meu avô precisando ver alguns negócios pendentes naquela cidade e ainda, a necessidade de meu pai resolver, também, algo junto à Previdência, fizeram, tais motivos, que eu seguisse junto com a mudança, que ia de caminhão. Assim, seguimos nós rumo para Araguari e eu para Ribeirão Preto, onde a mudança ficaria armazenada até termos definida moradia em Jaboticabal, cidade próxima.
A viagem transcorreu tranqüila até Uberlândia, onde pernoitamos. Em Uberlândia aproveitei a oportunidade para visitar e rever meus avós paternos Cirilo e Mariana. No dia seguinte, seguimos sem novidades até Ribeirão Preto, onde pernoitamos, para no dia seguinte descarregarmos a mudança, num armazém da Mogiana.
Meu pai me autorizara a esperar pela família em Ribeirão Preto, porém, eu resolvi seguir para Jaboticabal. Sabia, apenas, de que um dos líderes da Igreja, se chamava Floriano Simões, e que era o tesoureiro dos Correios. Hospedei-me num hotel de evangélicos, os Mazzeo, que brevemente estariam se mudando para Santos. Todavia, assim, que me encontrei com nosso irmão Sr. Floriano, ele não me permitiu ficar no hotel. Pegou a minha mala, justificou-se com nosso irmão Sr. André Mazzeo, que, na verdade já entregara o hotel aos novos proprietários, e agasalhou-me em seu lar, até que minha família chegasse.
Foi uma semana muito agradável. D. Antonieta, a dona da casa recebeu-me como a um filho, as filhas como se irmão delas. Eu que alimentava desconfianças sobre a hospitalidade paulista, fui desarmado da minha prevenção. A família do Sr. Floriano estava totalmente integrada e envolvida com a vida da Igreja Presbiteriana de Jaboticabal.
Ao fim de uma semana, finalmente, a família chegou, e, todos nos hospedamos no hotel, que fora dos irmãos Mazzeo. Por uma semana, permanecemos no hotel, até que encontramos uma residência adequada, não muito distante do templo.
Enquanto aguardava a chegada da família, de posse da Transferência Escolar de Anápolis, GO, fui até ao Colégio Estadual “Aurélio Arrobas Martins”. Na secretaria do Colégio, a secretária, D. Iracema, constatou que a documentação estava correta, mas não me identificou como aquele de que o documento fazia referência. Olhou-me dos pés à cabeça e parece que não se convenceu de que aquele “jovem cowboy”, diante dela, pudesse ser um estudante. Então, lhe perguntei: “será que não tenho jeito de estudante?” Ela, embaraçada, admitiu e, sorridente deu-me a mão como sinal de boas vindas, ou, está tudo certo “. Matriculara-me na terceira série ginasial. À partir daí não tivemos mais embaraços com a continuidade dos meus estudos.
Começamos a sentir que, de fato, os Caminhos da Providência nos tinham conduzido para Jaboticabal. A cidade limpa, acolhedora, enfrentava o grave problema da escassez de água. Como o precioso líquido nos faltasse, na primeira casa, fomos obrigados a nos mudarmos para outra casa, bem distante da Igreja. Logo, logo surgiu o problema da falta de água. E, agora? Aconselharam-nos a mudarmos para as dependências da zeladoria, desocupada, na ocasião.
Ali não havia falta de água, porque fizeram um depósito ao nível do chão, quando a água da caixa terminava, bastava ligar o motor e o problema estava resolvido. Tudo ia bem. Meu avô comprara um pequeno sítio, cerca de três quilômetros do centro da cidade, onde uma cisterna com bastante água lhe supria as necessidades. A irmã de criação de minha mãe, a “tia” Galdina, fazia companhia aos velhos Zéca Coelho e Isolina Goulart. É inenarráveis a fidelidade e desprendimento dela, para com os seus velhos pais adotivos. Ela tinha sido, desde a sua infância, conduzida aos pés de Jesus, pelos pais adotivos.
Algo, entretanto, começou a medrar na Congregação, que viria molestar e entristecer os obreiros Marcílio e Gersonita, e a mim, tão jovem, revolta. Alguns irmãos, “preeminentes”, alguns se julgando assim mais que outros, não aceitaram muito bem a troca efetuada pela Missão: o missionário Rev. Dr. Eduardo Lane, que não apenas era Pastor Ordenado, mas homem de recursos, por obreiros leigos. (Interessante é que um desses “líderes” estudara no IB de Patrocínio).
Incompreensível e inaceitavelmente, propuseram a meus pais que, pela casa, fizessem o serviço de zeladoria da Igreja. Sem um protesto, eles aceitaram a nova incumbência que lhes foi imposta. Como me doía ver meu pai, descalço, as pernas da calça levantadas e ele e minha mãe lavando, esfregando, encerando, ornamentando, para depois, à frente da Comunidade, exercer o ministério. Eu nunca me furtei a ajuda-los, mas não aceitava tranqüilamente a situação. Foi então, que o Pastor encarregado da ministração dos Atos Pastorais, o Rev. Adauto Dourado de Araújo, tomando conhecimento do que estava ocorrendo, exigiu que se contratassem zeladores para a Igreja, porque esta não era a obrigação dos Evangelistas, aos quais ele valorizava considerando-os como os verdadeiros pastores da Igreja.
Esta atitude do Rev. Adauto, foi reconfortante aos meus pais, restaurando-lhes muito da estima própria. “O irmão, porém, de condição humilde glorie-se na sua dignidade”. (Tg.1:9)
Deus, entretanto, já tinha acionado eventos que iriam mudar tudo. A Missão Oeste do Brasil e o Presbitério de Rio Claro, entraram em mútuo acordo, e a Missão entregou a Igreja de Jaboticabal, ao campo que incluía Guariba, Taquaritinga, reservando-se a jurisdição da Igreja de Barretos, e da Congregação Presbiterial do Frigorífico-Anglo.
Concluída a terceira série em 1946, tendo a família reunida, o ano de 1947 trouxe de novo a necessidade de mais uma mudança. Meus pais foram assumir a Congregação do Frigorífico-Anglo, em Barretos. Eu permaneci em Jaboticabal, com meus avós, no Sítio. Ainda bem que a minha velha bicicleta, quebrava o galho da ida ao Colégio, Escola Dominical. Aos domingos eu ia aos cultos à pé.
No sítio, eu era o companheiro do meu avô, o melhor e mais querido amigo da minha infância, ajudando-o em tudo, dentro da disponibilidade de tempo com o Colégio e tarefas escolares.
Eu aprendi a manejar eficientemente um novo tipo de caneta: o cabo da enxada. Aprendi, também, a manejar o arado puxado a animal, uma égua possante. Entre as ruas do cafezal, plantava-se arroz para o consumo. Eu cortava com o cutelo e depois de um período, para secagem, batia-se os feixes no jirau adequado. Quando o café estava maduro, era hora da colheita. Plantávamos milho e mandioca. O pomar tinha uma variedade de frutas: jabuticaba, abacateiros, laranjeiras, fruta do conde, laranja cravo, carambola, figo, abacaxis. O mercado de frutas de Jabuticabal se saturava logo, e o jeito era vender o que se podia aos revendedores, que comerciavam com São Paulo. Eles nos deixavam as caixas e nós condicionávamos as frutas. No sítio tínhamos uma grande moita de bambu. Um homem que fabricava cestos, começou a fabricá-los à meia. Os cestos eram vendidos para os pequenos produtores de café. Alguns eram usados no sítio para a colheita do nosso próprio café. A minha “tia” Galdina , era perita em torrefação de farinha de mandioca, bem torradinha e de “beiju”. Os balaios eram úteis para acomodar a farinha. Fizemos uma divulgação, verdade que muito pequena, mas a procura pela farinha do “seo” Zéca Mineiro, cresceu. Em todo esse esforço eu tive uma boa parcela de participação.
A vida na Igreja ia bem, embora não tivéssemos pastor ordenado, mas um licenciado ao Ministério, o Bacharel Hélio Cerqueira Leite. Excelente orador, de temperamento afável, solícito, bom de violão e com uma voz agradável, ele compartilhava assim o seu interesse pela mocidade. Após a sua ordenação ele foi para Itápolis, pastorear a Igreja ali.
O que fazer nesta situação? Nós, os membros da Congregação, adultos e jovens nos revezávamos na direção dos trabalhos na sede, e nas congregações de Guariba, Taquaritinga, pontos de pregação, Monte Alto, Lusitana e Fazenda São João.
Finalmente, 1947, chegou ao fim, e lá estava eu todo enfarpelado, vestido de azul marinho (casimira), gravata borboleta, recebendo numa festiva cerimônia, o meu certificado de 4ª série (antigamente “bacharel em humanidades”). Minha madrinha, a professora evangélica, D. Alice de Campos Barreto. (O terno de formatura foi presente dela).
Após a festiva cerimônia, que se prolongou pela noite à dentro com orquestra e danças para os não evangélicos, de posse do “meu tão querido e sonhado” certificado, meus pais, meus tios João Galante e Orozina (irmã do meu pai), que nos visitavam na oportunidade (residiam em Araguari, MG), e eu, retornamos ao sítio, onde, juntos e alegremente, compartilhamos uma farofa de frango, à mineira.
Diria, com a Palavra: “Até aqui nos ajudou o Senhor, Ebenezer.”