segunda-feira, 15 de novembro de 2010

PRAIA DO GONZAGA EM SANTOS


Essa foto aí em cima foi tirada no dia de hoje, 15 de novembro de 2010, feriado, dia da proclamação da república. Praia do Gonzaga, na cidade de Santos. Copiei da UOL.

Essa imagem me traz grandes e boas recordações. Minha adolescência vem à cabeça com força. Na década de 70 eu morava com a minha família em Santos, exatamente no bairro do Gonzaga. Na verdade foram poucos anos, e não a década toda. Foi de julho de 1975 a janeiro de 1980.

Cheguei a Santos com 12 anos de idade. Um menino aturdido com a cidade grande. Eu tinha saído do interior de Goiás. Nunca tinha visto o mar. Não fazia nem ideia. É claro que na escola já tinha visto ilustrações, e também na televisão, mas na minha cabeça, não imaginava como era de verdade.

Na noite em que chegamos, meu pai levou a mim e a minha irmã caçula para ver o mar. Mas era noite e não víamos nada. Ficamos um tempo sentados num banco de concreto no calçadão ao lado do Posto 2. E meu pai tentava nos dar uma dimensão da coisa, mas não adiantava. A gente queria ver o mar, tocar nele, sentir como era.

Tivemos que nos contentar em ver aquela espuma branca aparecendo e sumindo ao longe. Eram as ondas que arrebentavam gerando aquela espuma branquinha. Fiquei aflito e mal dava para esperar o novo dia para ver de perto aquela lagoa enorme. Me lembro que só fui matar a minha curiosidade alguns dias depois. Porque estávamos todos envolvidos em arrumar a mudança, pôr os móveis no lugar e tudo mais, e como era pequeno, tinha que esperar alguém mais velho se desocupar para me levar.

Mas o dia chegou e quando vi aquele... mar... senti uma sensação tão boa, o peito parecia que ia se abrir, explodir. Na época não sabia explicar o que estava sentindo, mas hoje, lembrando daquele momento, eu estava de frente com a liberdade, com o limite da terra e o ilimite do mar. Olhava a linha do horizonte e apesar de não ver além dela, tentava adivinhar um mundo após.

Também experimentei a água molhando o dedo, e vi que era salgada de verdade. Só conhecia águas dos rios. Pulei nas ondas e sobre elas. Mergulhei com os olhos abertos e vi estrelas. Levei picada de siri. Vi as pessoas pegando jacaré, e tentei fazer igual até conseguir. Vi os surfistas com as suas pranchas pegando onda e fazendo manobras radicais, e ficava embasbacado. Um mundo novo!

Fui muito feliz em Santos. Fiz boas amizades. Joguei muita bola na praia. Vôlei. Frescobol. Tamboréu. Corri muito ali. Do Posto 2 até a praia do Itararé em São Vicente. Subia no trem que passava próximo de casa. Andava de bicicleta na cidade toda. Andava em lugares que meus pais nunca desconfiaram. Fui a um jogo do Santos na Vila Belmiro, mas não me lembro contra quem e nem quem ganhou, porque não suportei o barulho da torcida e acabei saindo mais cedo. Já naquela época apreciava a calma, a quietude. Muita gente confinada me deixava agoniado.

Agora, na praia, não me importava com muita gente. Paquerei muito. Não muito. Podia ter paquerado mais. Santos é um lugar de gente bonita. Também é um lugar de gente da terceira idade. Dizem que é a cidade dos aposentados. Quando me aposentar, quem sabe realizo o sonho de voltar pra lá?! Não falta tanto tempo mais. Será que ainda Deus vai me dar essa oportunidade?!

sábado, 18 de setembro de 2010

Até quando?


Aquela cena terrível ainda me vem à mente de repente.

Até quando?

Dia 15 de setembro de 2010, quarta-feira, manhã, Feira dos Importados em Brasília. Estava em férias em Paracatu/MG e ao retornar pra casa, dei carona a minha cunhada até Brasília. Lá chegando, ela nos convenceu a ir a essa feira comprar roupas, porque é tudo mais em conta. Chegando àquela rua estreita da feira, vimos um corpo no chão, naquele asfalto quente, coberto com um saco plástico branco e com os pés descobertos. Em volta, cheio de sangue. Mais à frente um caminhão baú parado e vários policiais conversando na sombra que o baú proporcionava. O perímetro do acidente estava cercado com fita plástica amarela e preta. Muita gente ao redor daquele cerco olhando aquele corpo sem vida, miolos, ali, estendido naquele chão quente. Meu Deus! Que cena horrível!

Perguntei a um jovem visivelmente perplexo com o que havia acontecido, e ele disse que viu o acidente. O caminhão estava parado na faixa esquerda da rua com o motor funcionando, a mulher parou e se encostou ao lado esquerdo do para-choque na frente do caminhão, meio encurvada pra frente olhando após do caminhão, certamente pra ver se não vinha nenhum carro pra que pudesse acabar de atravessar a rua. Nesse momento o motorista do caminhão o acelerou e saiu empurrando a mulher pra debaixo dele e passando com a roda por cima da sua cabeça. O motorista só parou quando ouviu as pessoas gritando pra ele parar.

Escutando outras pessoas por ali, fiquei sabendo que a mulher tinha 32 anos e tinha acabado de sair da loja da cunhada, que a cunhada viu tudo e desmaiou, que o motorista tinha ficado muito perturbado quando viu a mulher no chão sem a cabeça, que o motorista disse que não viu ninguém na frente do caminhão, que a mulher era baixa e a cabine do caminhão alta e isso foi o motivo do motorista não ter visto a mulher etc.

Aquela cena daquela mulher estendida ali na rua, as pessoas olhando, sem ninguém poder fazer nada, sem eu poder fazer nada. Sensação de impotência. Eu pensava comigo mesmo, o que posso fazer? Confesso que passou pela minha cabeça..., e se orasse a Deus em nome de Jesus para que ressuscitasse aquela mulher?! Se Deus atendesse minha oração e realizasse ali naquele momento o milagre da vida?! Quantas pessoas ali seriam alcançadas pelo Evangelho vendo o poder de Deus se manifestando naquele corpinho ali, recompondo primeiro a sua cabeça e em seguida se levantando dando glórias ao Pai?!

Fico pensando, que tipo de fé é essa que digo possuir? Jesus disse que se tivéssemos fé do tamanho de um grão de mostarda, poderíamos mover montanha. Mas e se eu orasse ali e não acontecesse nada? Morreria também eu de vergonha? As pessoas zombariam de mim? Poderiam me hostilizar? O que eu poderia falar àquelas pessoas se Deus não quisesse levantar aquela mulher morta? Cadê a minha ousadia pra pregar as Boas Novas? Cadê a minha intrepidez pra aproveitar a oportunidade? Cadê a minha confiança em Jesus? O que aconteceu com aquela paz que saí do encontro nacional do caminho da graça? Será que entendi tudo mesmo? Por que eu já maduro, pelo menos na idade, impressionar tanto como a um menino?

Depois, fico arrazoando comigo mesmo, que estou sendo extremista demais, que Jesus não me deu o dom de ressuscitar, que Jesus sabe que a nossa fé é mesmo muito pequena, muitas vezes menor que o grão de mostarda, tanto que Ele mesmo anunciou isso, que Ele não vai me cobrar por essa fraqueza, que sou mesmo fraco e Ele sabe disso melhor do que eu mesmo, que fatalidades acontecem o tempo todo, e foi o que aconteceu com aquela mulher, que poderia ter acontecido comigo mesmo ou qualquer familiar meu, que não sou nada e que por isso mesmo preciso tanto da misericórdia e da graça do Senhor Jesus, que... que... que...

...que fim de férias!

David

segunda-feira, 9 de março de 2009

O EXILADO (DA LINDA PÁTRIA)



O EXILADO (DA LINDA PÁTRIA)

Da linda pátria estou bem longe;
Cansado estou;
Eu tenho de Jesus saudade,
Oh, quando é que eu vou?
Passarinhos, belas flores,
Querem m'encantar;
São vãos terrestres esplendores,
Mas contemplo o meu lar.

Jesus me deu a Sua promessa;
Me vem buscar;
Meu coração está com pressa,
Eu quero já voar.
Meus pecados foram muitos,
Mui culpado sou;
Porém, Seu sangue põe-me limpo;
Eu para pátria vou.

Qual filho de seu lar saudoso,
Eu quero ir;
Qual passarinho para o ninho,
Pra os braços Seus fugir;
É fiel - Sua vinda é certa,
Quando... Eu não sei.
Mas Ele manda estar alerta;
Do exílio voltarei.

Sua vinda aguardo eu cantando;
Meu lar no céu;
Seus passos hei de ouvir soando
Além do escuro véu.
Passarinhos, belas flores,
Querem m'encantar;
São vãos terrestres esplendores,
Mas contemplo o meu lar.

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Não sei como minha maninha conseguiu, mas ela cantou esse hino no culto fúnebre do meu velho e saudoso pai. Eu só chorava, e continuo chorando toda vez que o ouço. A mensagem é linda e nos fala da 'saudade' de estar com Jesus, mas não consigo me controlar, e na verdade, nem faço nenhum esforço pra isso..., deixo acontecer. Depois, é como se eu tivesse sido lavado e me sinto mais leve. Não sei explicar melhor!


sábado, 20 de dezembro de 2008

ESBOÇO DE UMA VIDA - Parte 11


Apenas, sentimos que a Providência Divina estava novamente em ação. A decisão, é claro, foi pela afirmativa. A próxima semana nos pegou, a mim e a meu pai, seguindo para São José do Rio Preto. Lá chegando, fomos a procura do Rev. Armando Pena Forte de Amorim, o pastor da igreja, cuja residência ficava ao lado do templo da Igreja Presbiteriana, ali na Rua Prudente de Moraes, meu domicílio durante o ano de 1948.
A nossa curiosidade foi satisfeita quanto ao que sucedera. De tempos em tempos o Seminário Presbiteriano de Campinas promovia uma campanha pró-vocações. Recentemente o Rev. Jorge Goulart, Deão do seminário e primo de minha mãe Ninita, passara por Barretos e estivera conosco, quando tomou conhecimento dos obstáculos que enfrentávamos, quanto à continuidade dos meus estudos. Não fizera ele, na ocasião, nenhum maior comentário, mas, assim que chegou a São José do Rio Preto ele comentou com o Rev. Armando que tinha um “sobrinho”, aspirante ao Santo Ministério, sem recursos para continuar os estudos, o que é que o Presbitério de Araraquara poderia fazer a respeito? Rev. Armando respondeu: quanto ao Presbitério, é cedo para afirmar qualquer coisa, porém, quanto a mim já me decidi, vou trazer o Milburges para São José do Rio Preto.
Ato contínuo matriculou-me na primeira série do curso clássico; aguardava a documentação de praxe para que a mesma se efetivasse. Meu pai e eu fomos para Rio Preto levar os documentos exigidos, para a efetivação da matrícula. Papai retornou a Barretos e eu permaneci, bastante constrangido é verdade, pelo fato de todos me serem desconhecidos. A minha insegurança aumentava, por causa da ansiedade que me dominava. A dona da casa estava viajando com os filhos, aproveitando os últimos dias de férias na cidade de Campinas na casa do pai, o Sr. Germano. Dona Dalila (assim se chamava a esposa do Rev. Amorim), não demorou a retornar, acompanhada de seus quatro filhos: Gilmar (o mais velho, eu o conhecera num congresso da mocidade na cidade de São Carlos, em 1946), Cleomar (a única menina), Edenar e Osmar (o caçula). Imagine-se a surpresa de D. Dalila ao chegar e ser apresentada, segundo as palavras do esposo, ao “novo filho”. A reação não foi nada calorosa, e eu mais encabulado fiquei.
O Rev. Teófilo Carnier pastor da I Igreja de Barretos e encarregado dos atos pastorais junto à Congregação do Frigorífico, tornara-se um bom e grande amigo de meus pais. Fizera ele uma observação preocupante, a respeito de D. Dalila Germano Amorim. Talvez por descender de uma família financeiramente muito bem sucedida, não se acostumara ainda à frugalidade da vida de esposa de pastor pobre, que de grande tinha sua avantajada estrutura física, e um coração tão grande e generoso, quanto ao seu “peito avantajado”, onde lhe pulsava um grande coração. Coração de Pastor!
Tudo acabara por cair no ritmo da normalidade do habitual. Integrado no saio da família, no seio da Família da Fé, a vida estudantil correndo bem. De repente, o susto explodiu como bomba, eu nascera em 1928, portanto em 1948 eu tinha a idade para o obrigatório serviço militar. Esquecêramos totalmente do alistamento competente e, agora, via-me na contingência de perder de não poder matricular-me no Tiro de Guerra, e ter que incorporar-me ao serviço militar, em regime de caserna, de exército. Seria mais uma interrupção no processo de preparação para o seminário.
Entrou, então, em cena o amado presbítero, o médico Dr. Alípio Benedito Cerqueira de Castilho, major médico, reformado do exército. Apadrinhou-me e usando sua influência junto à direção do Tiro de Guerra, conseguiu que eu fosse, finalmente, matriculado no Tiro de Guerra.
O tempo tinha que ser dividido entre o colégio e o Tiro de Guerra. A fim de poupar meu pai do dinheiro que remetia para pagar lavanderia e passadeira, resolvi, eu mesmo, lavar e passar a minha roupa, inclusive o uniforme do colégio e a farda do TG. Pela manhã eu lavava a roupa, após o almoço, aulas. Como a instrução no TG tinha inicio às 18h00, eu saia do colégio, às 17h00, chegava em casa, pegava a farda no varal, mais dura e ressequida que couro. Passava, vestia e seguia para o TG. As outras peças de roupa ficavam sobre a cama, à espera do meu retorno, quando eu passava tudo. Não era muita coisa. O meu guarda-roupa era escasso, bem escasso. Tanto assim que naquele tempo era comum o uso de suspensórios. Eu não fugia à regra. Algo, hilário, acontecia toda semana. Duas calças caqui, do uniforme do colégio, tinham o cós alto porque se usava suspensório. Quando lavava uma das calças, precisava mudar os botões dos suspensórios para a outra calça. Por muito tempo vinha repetindo esta providência, até que, D. Dalila, agora minha amiga, trocou definitivamente aqueles botões, como, também, entregou minha roupa e a “bendita” farda aos cuidados de sua lavadeira e passadeira. Aleluia!
A Junta de Missões Nacionais entregara ao Presbitério os campos de Mirassol, José Bonifácio, Tanabi e Votuporanga. Coube ao Rev. Armando Amorim como Secretário Permanente (executivo), coordenar a assistência ao campo. A partir daí fui aproveitado com freqüência nos trabalhos, pelo campo todo. De sorte que visitava a Congregação de Mirassol, a de José Bonifácio, a de Tanabi, e pontos de pregação. Pelo fato de receber uma gratificação, pequena, pela colaboração, deu-me mais tranqüilidade no desfrutar da hospitalidade do Pastor.
Como as instruções do TG aos domingos iam das 7h00 às 11h00, eu freqüentava a Escola Dominical na Igreja Presbiteriana Independente cujo Pastor era o Rev. Rubens Cintra Damião, meu professor de Grego e de Inglês. Tive, assim, a oportunidade de cooperar com a IPI, lecionando para a mocidade na ED e esporadicamente, dirigindo os estudos bíblicos semanais, e substituindo o Pastor no púlpito, quando solicitado.
Apesar das muitas lutas, de momentos de desânimo, fui ricamente abençoado durante a permanência em São José do Rio Preto (1948). Porque fui amadurecendo em minhas experiências de jovem cristão, como também, definindo com mais objetividade o alvo primário da minha vida. Lembro-me hoje, até com saudade, dos sacrifícios do tempo do TG e do Sgt. Darwia Villar da Costa, um paranaense de maus bofes, que afirmava não gosta de estudantes e de “crentes”.
As Igrejas Presbiterianas e Presbiterianas Independentes, praticamente me adotaram. A generosidade dos irmãos da SAF supriu-me naquilo que me faltava, porém, especialmente o carinho, a amizade e a consideração, para com aquele estudante magricela, mineiro de calcanhar rachado (como se dizia em Minas). Como eu tinha muitos compromissos, tinha uma dificuldade... Não tinha relógio. O Rev. Rubens apresentou-me ao irmão Sr. Scarânio, Presbítero da IPI, e dono de uma relojoaria de porte, para que me vendesse à prazo um relógio. Escolhido o relógio, fiquei todo feliz, pois pela primeira vez tinha um relógio, ao pulso. Por ocasião do meu retorno para casa, fui conversar com o Presb. Scarânio obre o relógio. O Rev. Rubens, para não me constranger, me encaminhara ao irmão Scarânio, mas não me dissera que já havia pagado o relógio (de marca Royce).
Após o TG e em gozo de férias após o primeiro clássico, retornei a família, ainda no Frigorífico Anglo (Barretos). E aí, novamente nos deparamos com os Caminhos da Providência. O Sr. Benedito comprador do sítio de Jaboticabal estava tendo dificuldade no pagamento. Então meu pai e meu avô, com o espírito cristão que os animava, propuseram ao irmão Sr. Benedito a devolução da propriedade, o que evitaria maiores constrangimentos para as partes, e menor prejuízo para meu avô. Pois, por falta de dinheiro, o carrinho e o animal foram vendidos, fato que limitaria muito a comercialização de produtos do sítio, como fazia de primeiro. Nosso irmão hesitou em aceitar a proposta, pois reconhecera que fizera um mau negócio, e queria, o quanto antes voltar para o meio da sua parentela, para os lados de Tietê.
Posto isto, eis-nos de novo, meus avós e eu, e de novo a “tia Galdina” no sítio de Jaboticabal. O segundo clássico seria cursado no Colégio Estadual, onde eu concluiria o curso ginasial, com uma série de novas dificuldades em 1949. O fato, porém, de retornarmos ao convívio antigo com os amados irmãos que ali deixáramos, foi gratificante.
Os acontecimentos de 1949 serão assuntos para: Caminhos da Providência V.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

FÉRIAS 2008 DATELL



Depois de muitos anos consegui me programar para sair de férias com minha mulher. Bem, não foi lá uma grande programação, porque até as vésperas, não sabia ainda muito bem aonde ir. Pensei em Bonito do Mato Grosso do Sul, em Guarapari no Espírito Santo, em Pirenópolis aqui em Goiás, em Rio Quente também em Goiás, porém, aproveitando a oportunidade para levar meu mano em Santos, que estava passando uns dias aqui com meus familiares, resolvi ficar uns dias por lá e depois seguir pelo litoral norte via Rio-Santos até onde o dindin desse. Nunca fiz nada parecido, mas nunca é tarde para se começar, mesmo tendo agora que economizar por um ano... Valeu à pena!


Saímos de Rio Verde na terça dia 15 de julho às 16h. Às 6h da quarta estávamos em Santos. Deixei meu mano em sua casa com minha cunhadinha e seus pais. Demos entrada no Hotel Caravelas que fica a 20m da praia José Menino, ali, no canal 1. Muito aconchegante, o pessoal simpático, acolhedor e o café da manhã gostoso. Sentimos-nos muito bem ali.

Descansamos um pouco e depois fomos procurar um lugar legal para comermos. Almoçamos no Restaurante Praia Gonzaga que fica ali na Av. Mal. Floriano Peixoto. Uma comida muito gostosa e um lugar bem tranqüilo, apesar do trânsito movimentado do lado de fora. Depois, como não poderia deixar de atender minha esposinha querida, fomos às compras nas lojas do Gonzaga. Ai... Andamos, andamos, andamos... Caramba! Ela não se cansava! E eu doido pra caminhar na praia com a água salgada pelo tornozelo. Paciência!

Na quinta fomos até a Ilha Porchat tirar algumas fotos do mirante projetado pelo Niemeyer que fica no topo da ilha. Esse mirante tem um bicão que fica apontado na direção de Brasília. A visão de lá é simplesmente maravilhosa. Dá pra vislumbrar as praias do Gonzaguinha e Itararé, ambas em São Vicente, e também a baia de Santos. Lembrei-me que nessa ilha tem uma pedra que o pessoal chama de Pedra do Tarzan e eu já pulei de cima dela pro mar, quando era adolescente nos anos 70. Hoje, “acho” que nem consigo subir nela! Que dúvida! Mas sou capaz de ficar ali por horas admirando a beleza natural contrastando com a engenhosidade do homem, e tudo criado por Deus. Fico até extasiado. Depois, fomos visitar um velho amigo e sua família.

Na sexta fomos caminhar na praia. Começamos ali no canal 1, Praia do José Menino e fomos até o canal 5, Praia do Embaré. Achei a praia muito limpa e a água também estava bem clara. Bem diferente da outra vez em que estive em Santos há alguns anos. Os jardins estavam muito bem cuidados. A prefeitura de Santos tem quarenta funcionários só por conta de manter o jardim bem cuidado. E aqui uma informação oficial: depois de muita pesquisa, os editores do Guinness Book of Records, o livro dos recordes, finalmente incluíram o jardim da orla de Santos como o jardim frontal de praia de maior extensão do mundo; são 5.335m de extensão distribuídos ao longo de 7km de praias, ou 218.800m², que vão do José Menino à Ponta da Praia. Dá pra fazer uma caminhada e tanto, e se ainda tiver fôlego, dá pra estender até a Ilha Porchat em São Vicente.

À tarde fomos passear na Escuna Tamburutaca. Foi quase duas horas de passeio e eu fiquei sentado o tempo todo. Fiquei com receio de me levantar e tontear e dar vexame. Mas o passeio foi muito gostoso e o mestre da escuna ia narrando pelo microfone as informações de cada lugar. Passamos pela Fortaleza da Barra, Ilha das Palmas, praias do Góes, do Cheira Limão e do Sangava - localizadas no Guarujá - e da Ilha de Urubuqueçaba, na divisa com São Vicente. Também vimos, sob um ângulo privilegiado, as praias do José Menino, Pompéia, Gonzaga, Boqueirão, Embaré, Aparecida e Ponta da Praia, todas em Santos. Na direção contrária, através do estuário e Canal de Bertioga, vimos o porto e seus armazéns, as construções antigas da Codesp, a Ilha Barnabé, a Base Aérea de Santos e a Ilha Diana, onde vive uma comunidade de 200 pescadores, os manguezais e parte da área continental de Santos. Também dava pra ver vários prédios inclinados. O mestre da escuna disse que 95% dos prédios da orla têm algum grau de inclinação, mas que os técnicos que fizeram essa avaliação disseram que não tem risco para os moradores (será que algum téc+.lltnico mora num desses prédios?). Achei o ingresso do passeio meio caro, R$ 20,00 por pessoa, mas como nunca tinha feito esse passeio, achei que valia a pena. Encerrando o passeio o mestre fez um sorteio e a Tell ganhou uma coca lata geladinha e uma miniatura da escuna, e ainda pegou no timão (imagina o risco que corremos?!).

Depois fomos conhecer o Museu da Pesca. Sabe o que tinha lá? Um tantão de esqueleto de peixes de tudo quanto é tamanho, e mais algumas curiosidades. Para quem gosta de peixe é uma boa pedida. Olha o tamanho do tubarão da foto aí. Esse esqueleto comigo ao lado, se trata de uma baleia de sete toneladas e com vinte e três metros de comprimento. Grandinha não?!

À noite fomos comer uma pizza no Van Gogh. Uma delícia! O problema é que serve aperitivo enquanto sai a pizza, e eu acabei entrando pra valer no aperitivo, e quando veio a pizza, só consegui comer quatro pedaços, só! A Tell comeu um e meio e o que sobrou, guardei no frigobar do hotel, e se ninguém de lá observou, deve tá lá até hoje! Pois só fui me lembrar disso quando já estava em Ubatuba.

Sábado levantamos cedo, tomamos café e pegamos a balsa (é de grátis!) para Guarujá. Fomos até a Praia do Pernambuco, águas claras e rasas, mas como as achei muito fria, não tive coragem de entrar no mar não, mas a Tell não perdeu tempo. Essa sabe aproveitar! Eu me satisfiz só de ficar sentado debaixo do guarda-sol admirando as pequenas ondas arrebentar na praia, e claro, bebendo coca-cola e comendo petisco de camarão com cebola a milanesa. Mais tarde fomos caminhar pela praia e quando nos cansamos ficamos encostados nas pedras da ilha. Aproveitamos também pra tirar água do joelho porque lá não tem banheiro público, aí o jeito foi entrar no meio das árvores da ilha. A prefeitura podia providenciar banheiro público nas praias do Guarujá como tem nas praias de Santos, não é?!

Retornamos à Santos no meio da tarde e pegamos o bonde funicular do Monte Serrat. São aproximadamente quatro minutos de subida. De lá tiramos algumas fotos da cidade de Santos e do porto. A vista é realmente muito bonita de lá de cima. O Cassino de Monte Serrat foi inaugurado em 1927, mas eu fiquei um pouco frustrado porque achava que pela fama, o lugar oferecesse mais entretenimentos aos turistas. Com relação à gastronomia mesmo, não tinha nada de interessante. Podia ter, por exemplo, um bom restaurante. Acho que falta um pouco de investimento. Lá em cima tem uma vila pequena e uma igrejinha, e do mirante dá pra tirar boas fotos. Nesse dia ia ter um casamento lá. Estava cheio de gente arrumando tudo para a cerimônia e festa. O pessoal que puxa e segura o bondinho pra cima e pra baixo, ia ter muito trabalho. Haja cabo!

À noite fomos convidados pelos nossos amigos Fernando e Nilce para jantarmos. Eles escolheram um restaurante diferente. Não me lembro o nome agora, mas sei que fica na Afonso Pena. Lá serve rodízio de espetinho. É só espetinho mesmo, mas de várias carnes, e tinha até uva e morango com cobertura de chocolate no espeto. Eu achei que a conta ia ser dividida e comi uns dez, mas na hora de pagar o Fernando não me deixou participar e pagou tudo sozinho. Obrigado Fernando! Da próxima, deixa comigo... vou comer o dobro! ;^) Também estava lá a Priscila, filha dos meus amigos e mais tarde chegou o casal Davi e Rosa, irmão e cunhada da Nilce. Tudo gente boa!

Domingo saímos cedo em direção a Ubatuba. Pegamos a balsa que atravessa para Guarujá e seguimos em frente. Pegamos a via Rio-Santos que passa a margem de várias praias, cada uma mais linda que a outra. Pena que não dava para parar toda hora para admirar com calma e tirar fotos.

Chegamos em Ubatuba pelas 13h e achamos uma pousada muito ajeitada. É a pousada Pousada das Artes da D. Arlete. O casal Francisco e Cristina é que são os responsáveis para manter tudo funcionando. A pousada é muito gostosa, são oito suítes temáticas, e cada uma representa um país. Ficamos com a da Grécia. Na sala da recepção fica uma garrafa de café, mas que não é só café, é café com leite. Eu ainda não tinha visto isso, porque normalmente só tem café preto nessas garrafas térmicas. Uma idéia legal! A D. Arlete é uma tremenda artista plástica e cada canto da pousada tem uma arte sua que encanta.

Depois de nos instalarmos, fomos procurar um restaurante. A Tell queria comer carne e eu achei foi bom, porque não sou fá de peixe. Aí achamos na praia das Toninhas o Restaurante Arrastão, muito acolhedor. Pedimos uma picanha na grelha. Que delícia! São quatro bifões no ponto servidos na grelha quente, com cebola e tomate, arroz com brócolis, farofinha com lingüiça e batatas fritas. Comi tanto que sai arregalado e me esqueci de tirar uma foto!

Na segunda fomos a Paraty. Sempre ouvi falar muito da cidade e quis aproveitar que estávamos tão perto e fomos passar o dia lá. O centro histórico é muito histórico (dizer mais o quê?!). Demos uma volta por lá, quase torcemos os tornozelos naquelas pedras. Como nossos predecessores sofriam, né!? Cansamos logo e fomos para uma praia atrás do monte que se chama Jabaquara. A vista é muito bonita e o mar calmo. Pode-se andar mais de cem metros mar adentro que a água só chega até as canelas. Mas a areia não é muito firme igual à de Santos. Tentamos caminhar, mas não deu. A gente se afundava na areia... quer dizer, eu né! Almoçamos num quiosque da praia mesmo, caminhamos mais um pouco pela cidade, tiramos fotos, compramos algumas coisinhas e retornamos a Ubatuba. Ah! Tomei um sorvete de capim cidreira. Já viu isso? Muito, muito bom... pra quem gosta!

Na terça o caixa já estava baixo, então, resolvemos pegar o caminho da roça, mas antes, passamos por São José dos Campos, Campinas, e paramos em Uberlândia. Na quarta fomos procurar a casa da sobrinha da Tell, e achamos, por incrível que pareça, mas não tinha ninguém lá. Aí rumamos para Paracatu, cidade da minha esposinha. À noite comemos um arroz com lingüiça na casa da minha cunhadinha Mírian que só ela mesma sabe preparar. Ficamos por lá quatro dias, passamos em Cristalina na casa da Yanne sobrinha da Tell, em Brasília almoçamos uma comida da hora na casa da D. Socorro e chegamos em Rio Verde no domingo à noite.

Em Paracatu, como sempre, acontecem coisas inusitadas. Uma manhã, às 5h30 fomos acordados pela Ruth e Florival com uma bandeija com pão de queijo quentinho, café, leite, e nescau. Não nos deixaram nem sair da cama. Tomamos o café da manhã ali mesmo. Dali eles foram fazer o mesmo em mais dois irmãos. Estavam animados!

Comi um prato na casa da Ruth e Florival que nunca tinha comido antes, é um tal de Galopé. É um cozido de galo com pé de porco. Tava da hora! Aliás, os almoços foram todos na casa deles. Ficamos instalados na casa grande de vó Lídia, mas tomamos as refeições lá.


Teve a comemoração do aniversário do meu cunhado Paulinho com arroz com carne de sol e galinhada, mas dessa vez eu comi pouco porque estava de noite. Só dois pratinhos!


Também teve o sábado em que a Maria, irmã do nosso cunhado Pedrinho, fez um grande almoço em seu rancho, e até a Tell aproveitou para pescar, ou melhor, tentar.


Teve também as pizzas que Dácia pagou na pizzaria do Paracatuzinho que estavam muito saborosas. Tudo muito bom!

Teve uma tardezinha que a Tell, Dácia, Queijo, Cida e Flávia foram visitar o túmulo da minha sogrinha. Só que se esqueceram da hora, e quando resolveram ir embora, acreditem... ficaram presos no cemitério. A senhora responsável pela chave do portão do cemitério, fechou o portão na hora certa, e não percebeu que ainda havia gente lá dentro. Tinha uns rapazes do lado de fora sentados no banco de concreto, e o Queijo gritou pedindo ajuda pra eles. Só deu neguinho correndo e Queijo gritando... Ôôô, gente, eu tô vivo, eu tô vivo!!! Ai perceberam que se tratava de gente viva mesmo, e foram chamar a dona da chave do portão que mora lá perto. A dona foi abrir o portão toda desconfiada porque a Tell tirou foto dela, e ela achou que era para dedurá-la ao prefeito. Mas ficou tudo bem. E mais uma história pra ser contada pros netos.

Para encerrar as férias, fomos passar os últimos dias em Mineiros na casa do nosso filho caçula Victor e nossa norinha legal que faz pudinho Leandra. E assim, acabamos nosso relato das férias de julho de 2008.

Ficamos muito satisfeitos com essas férias. Gastamos muito, e agora vamos ter que economizar até no papel higiênico, ;^) mas valeu a pena. Já estamos pensando para o ano que vem. Se Deus quiser, dessa vez vamos levar a família toda. Vai ser uma farra boa!

Ao Senhor nosso Deus agradecemos por ter proporcionado dias tão agradáveis, pelo cuidado, proteção e presença constante durante as férias. A Deus toda glória!


As fotos das férias estão no Orkut.

domingo, 13 de julho de 2008

ESBOÇO DE UMA VIDA - parte 10

O ano de 1948 começou nos surpreendendo, com algumas decisões inesperadas da família. Meus avôs começavam a sentir o peso dos anos, particularmente minha avó, que sofria bastante em virtude de uma bronquite-asmática, precisava da presença constante de minha mãe, que era obrigada a deslocar-se do Frigorífico Anglo (Barretos) para Jaboticabal. Diante desse quadro, a contra gosto do velho Zéca Coelho, a solução que melhor pareceu aos meus pais, foi a venda do sítio. Um senhor, membro da Congregação do Frigorífico, Sr. Benedito, bom crente e bom amigo, aposentara-se de sua atividade no Frigorífico e como se mostrasse interessado, em pouco tempo, pressionados mais pelas contingências familiares, meu avô sacramentou o negócio, cujas condições foram aquelas, comuns, a pais e filhos.
Vendido o sítio, nos transferimos todos para o Frigorífico.
O velho Zéca Coelho, pouco parou ali. Foi para Patos de Minas, passar uns tempos com o filho adotivo Pedro Coelho da Cunha, proprietário de um sítio, na Mata dos Fernandes, onde exercia a profissão de “dentista prático”, e desenvolvia um pequeno estabelecimento comercial no ponto de ônibus, o que lhes permitia oferecer aos passageiros: café, leite, quitandas e salgadinhos. Tia Clara, a esposa, era excelente quitandeira. Vovô se deliciava cultivando milho, mandioca e verduras. Ele não sabia ficar inativo.
As coisas, todavia, não se ajustaram muito bem a minha condição estudantil, que deveria, agora, ser desenvolvida no 2º grau, preferencialmente, no Curso Clássico, o mais indicado para quem planejava o Curso Teológico. Acontece que, Barretos, só oferecia o Científico, o Curso de Contabilidade e o Curso de Professor Normalista. Hoje, depois de tantos anos, sinto que na verdade, foi a precariedade das condições financeiras da família, o motivo que embaraçou as decisões a ser tomadas. Pois, o Seminário não tinha como, via de regra, obrigatoriedade pelo Curso Clássico. Apenas, que julgavam-no mais adequado. O que importava era ter-se concluído o 2º grau. Esta era a exigência.
Cabe aqui, em face desta preferência, uma pequena digressão. Como não era muito comum a existência do Clássico, na rede escolar estadual e nem particulares, foi criado em Jandira, subúrbio de São Paulo, o Instituto “José Manoel da Conceição”, o qual atendia não só aos candidatos ao ministério, mas a outros que não pretendiam o Ministério. O Colégio atendia não só a Igreja Presbiteriana do Brasil, mas também a Igreja Presbiteriana Independente. Os estudantes que demandavam aos seminários da IPB ou da IPI, iniciavam-se em algumas matérias do Teológico. Daí o Conceição ser considerado como um “Seminário Menor”. No meu caso, parece que como num ato falho, ninguém pensou nessa alternativa, que incluía, indispensavelmente, a co-participação da própria Igreja.
Posto isto, voltemos à realidade do ano de 1948. Entendendo, pessoalmente, o desgaste financeiro da família, e as preocupações com os novos encargos familiares, sugeri ao meu pai que eu gostaria de trabalhar aquele ano, a fim de compartilhar das lutas e necessidades, pressentidas. Surgiu uma vaga no escritório do Frigorífico Anglo, um funcionário estava de aviso prévio, reivindicando uma nomeação para funcionário do estado. Trabalhei por trinta dias, ao fim dos quais o funcionário retornou ao seu lugar, porque a sua nomeação não saíra. Senti-me frustrado, levando no bolso o salário recebido, fui para casa. Meus pais estavam em Barretos. Só tive minha avó e a “tia” Galdina para compartilhar a frustração daquele momento.
“Ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém!” (Rm. 16:27)
Não tive muito tempo para curtir minha frustração. Nós morávamos na Fazenda do Anglo, separada da Vila Pereira (bairro de Barretos), pelo ribeirão. O Patrono da Vila, o proprietário do loteamento, um português de nome Sr. Júlio Pereira, tinha, funcionando no seu armazém, um posto telefônico. Assim é que um seu empregado, foi até a nossa casa, para nos avisar que às 17:00h, daquele dia, alguém deveria estar presente no posto, para atender a um interurbano de São José do Rio Preto (região da araraquarense), Barretos ficava na região da Paulista.
Fiz-me presente às 17:00h no posto telefônico, e para minha surpresa, do outro lado da linha uma voz grave, sonora, comunicativa, ao saber quem do lado de cá estava a atende-lo, me disse: Então você é o Milburges Gonçalves Ribeiro, parente do Rev. Jorge Goulart? Pois bem, você já está matriculado no 1º Clássico, no Colégio Estadual de S. J. do Rio Preto, e vai residir em minha casa.
Como era hora da passagem do ônibus, Barretos-Frigorífico, e meus pais deveriam esta nele, eu o tomei nessa esperança, porque não me continha mais sem compartilhar toda a gama de sentimentos que me tumultuavam. Realmente, papai e mamãe lá estavam e ficaram admirados de me verem e com a cara espelhando uma emoção forte. Da Vila Pereira até nossa casa, foram dez minutos, insuficientes para colocar meus pais a par de tudo.
A perplexidade era grande, pois não entendíamos o que, de fato, acontecera.
(Aos amigos que têm compartilhado aqui esses textos da vida do meu pai, peço que aguardem os próximos para o mês de agosto. É que tirei uns dias de férias e em agosto, se Deus permitir, retorno. Deus abençoe a todos!)

terça-feira, 8 de julho de 2008

QUANDO EU CRESCER, QUERO SER POLICIAL!


Até quando o governo, as entidades representativas, nós, cidadãos comuns, todos,... vamos permitir tudo isso? Será que não existe gente com inteligência no governo capaz de criar um sistema de segurança policial que funcione? Será que os chamados intelectuais do Brasil não podem se unir e elaborar um projeto prático para melhorar nossa segurança pública? Sei lá! Eu sou um burro, mas tem tanta gente capaz... Por que não se unem ou mesmo sozinhos, não dão idéias para o governo. Por que não direcionam o dinheiro apreendido das quadrilhas, do narcotráfico e tudo que é de gente que rouba, das multas aplicadas sobre as empresas ou pessoas físicas mesmo, para o treinamento da polícia? Para ser um médico, um engenheiro, um contador etc. é preciso cursar uma faculdade..., por que não criar um sistema de treinamento policial similar à faculdade, com bastante treinamento em todos os tipos de situações possíveis? o policial teria no mínimo quatro anos para ser treinado antes de ser posto em campo. Os salários tinham que ser ótimos para despertar o interesse de pessoas com condições de serem mais bem preparadas, tinha que ter benefícios assim como as grandes empresas... No mais, treinamento, treinamento e treinamento, sempre. Não é assim que fazem as empresas organizadas? Investem em treinamento porque sabem que o retorno é garantido? Quem sabe ainda vou ver esse dia, o dia em que as pessoas sintam prazer em cumprimentar seus policiais ao invés de virarem o olhar com temor, as mães pararem a polícia na rua para seus filhos pegarem em suas mãos “amigas”, e se as crianças falarem, “quando crescer quero ser policial”, isso dê orgulho aos pais e aos próprios policiais... É bem provável que eu não veja esse dia, mas o menino João Roberto poderia... sim... poderia!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

ESBOÇO DE UMA VIDA - parte 9


Como meus pais queriam se despedir dos parentes em Araguari, meu avô precisando ver alguns negócios pendentes naquela cidade e ainda, a necessidade de meu pai resolver, também, algo junto à Previdência, fizeram, tais motivos, que eu seguisse junto com a mudança, que ia de caminhão. Assim, seguimos nós rumo para Araguari e eu para Ribeirão Preto, onde a mudança ficaria armazenada até termos definida moradia em Jaboticabal, cidade próxima.
A viagem transcorreu tranqüila até Uberlândia, onde pernoitamos. Em Uberlândia aproveitei a oportunidade para visitar e rever meus avós paternos Cirilo e Mariana. No dia seguinte, seguimos sem novidades até Ribeirão Preto, onde pernoitamos, para no dia seguinte descarregarmos a mudança, num armazém da Mogiana.
Meu pai me autorizara a esperar pela família em Ribeirão Preto, porém, eu resolvi seguir para Jaboticabal. Sabia, apenas, de que um dos líderes da Igreja, se chamava Floriano Simões, e que era o tesoureiro dos Correios. Hospedei-me num hotel de evangélicos, os Mazzeo, que brevemente estariam se mudando para Santos. Todavia, assim, que me encontrei com nosso irmão Sr. Floriano, ele não me permitiu ficar no hotel. Pegou a minha mala, justificou-se com nosso irmão Sr. André Mazzeo, que, na verdade já entregara o hotel aos novos proprietários, e agasalhou-me em seu lar, até que minha família chegasse.
Foi uma semana muito agradável. D. Antonieta, a dona da casa recebeu-me como a um filho, as filhas como se irmão delas. Eu que alimentava desconfianças sobre a hospitalidade paulista, fui desarmado da minha prevenção. A família do Sr. Floriano estava totalmente integrada e envolvida com a vida da Igreja Presbiteriana de Jaboticabal.
Ao fim de uma semana, finalmente, a família chegou, e, todos nos hospedamos no hotel, que fora dos irmãos Mazzeo. Por uma semana, permanecemos no hotel, até que encontramos uma residência adequada, não muito distante do templo.
Enquanto aguardava a chegada da família, de posse da Transferência Escolar de Anápolis, GO, fui até ao Colégio Estadual “Aurélio Arrobas Martins”. Na secretaria do Colégio, a secretária, D. Iracema, constatou que a documentação estava correta, mas não me identificou como aquele de que o documento fazia referência. Olhou-me dos pés à cabeça e parece que não se convenceu de que aquele “jovem cowboy”, diante dela, pudesse ser um estudante. Então, lhe perguntei: “será que não tenho jeito de estudante?” Ela, embaraçada, admitiu e, sorridente deu-me a mão como sinal de boas vindas, ou, está tudo certo “. Matriculara-me na terceira série ginasial. À partir daí não tivemos mais embaraços com a continuidade dos meus estudos.
Começamos a sentir que, de fato, os Caminhos da Providência nos tinham conduzido para Jaboticabal. A cidade limpa, acolhedora, enfrentava o grave problema da escassez de água. Como o precioso líquido nos faltasse, na primeira casa, fomos obrigados a nos mudarmos para outra casa, bem distante da Igreja. Logo, logo surgiu o problema da falta de água. E, agora? Aconselharam-nos a mudarmos para as dependências da zeladoria, desocupada, na ocasião.
Ali não havia falta de água, porque fizeram um depósito ao nível do chão, quando a água da caixa terminava, bastava ligar o motor e o problema estava resolvido. Tudo ia bem. Meu avô comprara um pequeno sítio, cerca de três quilômetros do centro da cidade, onde uma cisterna com bastante água lhe supria as necessidades. A irmã de criação de minha mãe, a “tia” Galdina, fazia companhia aos velhos Zéca Coelho e Isolina Goulart. É inenarráveis a fidelidade e desprendimento dela, para com os seus velhos pais adotivos. Ela tinha sido, desde a sua infância, conduzida aos pés de Jesus, pelos pais adotivos.
Algo, entretanto, começou a medrar na Congregação, que viria molestar e entristecer os obreiros Marcílio e Gersonita, e a mim, tão jovem, revolta. Alguns irmãos, “preeminentes”, alguns se julgando assim mais que outros, não aceitaram muito bem a troca efetuada pela Missão: o missionário Rev. Dr. Eduardo Lane, que não apenas era Pastor Ordenado, mas homem de recursos, por obreiros leigos. (Interessante é que um desses “líderes” estudara no IB de Patrocínio).
Incompreensível e inaceitavelmente, propuseram a meus pais que, pela casa, fizessem o serviço de zeladoria da Igreja. Sem um protesto, eles aceitaram a nova incumbência que lhes foi imposta. Como me doía ver meu pai, descalço, as pernas da calça levantadas e ele e minha mãe lavando, esfregando, encerando, ornamentando, para depois, à frente da Comunidade, exercer o ministério. Eu nunca me furtei a ajuda-los, mas não aceitava tranqüilamente a situação. Foi então, que o Pastor encarregado da ministração dos Atos Pastorais, o Rev. Adauto Dourado de Araújo, tomando conhecimento do que estava ocorrendo, exigiu que se contratassem zeladores para a Igreja, porque esta não era a obrigação dos Evangelistas, aos quais ele valorizava considerando-os como os verdadeiros pastores da Igreja.
Esta atitude do Rev. Adauto, foi reconfortante aos meus pais, restaurando-lhes muito da estima própria. “O irmão, porém, de condição humilde glorie-se na sua dignidade”. (Tg.1:9)
Deus, entretanto, já tinha acionado eventos que iriam mudar tudo. A Missão Oeste do Brasil e o Presbitério de Rio Claro, entraram em mútuo acordo, e a Missão entregou a Igreja de Jaboticabal, ao campo que incluía Guariba, Taquaritinga, reservando-se a jurisdição da Igreja de Barretos, e da Congregação Presbiterial do Frigorífico-Anglo.
Concluída a terceira série em 1946, tendo a família reunida, o ano de 1947 trouxe de novo a necessidade de mais uma mudança. Meus pais foram assumir a Congregação do Frigorífico-Anglo, em Barretos. Eu permaneci em Jaboticabal, com meus avós, no Sítio. Ainda bem que a minha velha bicicleta, quebrava o galho da ida ao Colégio, Escola Dominical. Aos domingos eu ia aos cultos à pé.
No sítio, eu era o companheiro do meu avô, o melhor e mais querido amigo da minha infância, ajudando-o em tudo, dentro da disponibilidade de tempo com o Colégio e tarefas escolares.
Eu aprendi a manejar eficientemente um novo tipo de caneta: o cabo da enxada. Aprendi, também, a manejar o arado puxado a animal, uma égua possante. Entre as ruas do cafezal, plantava-se arroz para o consumo. Eu cortava com o cutelo e depois de um período, para secagem, batia-se os feixes no jirau adequado. Quando o café estava maduro, era hora da colheita. Plantávamos milho e mandioca. O pomar tinha uma variedade de frutas: jabuticaba, abacateiros, laranjeiras, fruta do conde, laranja cravo, carambola, figo, abacaxis. O mercado de frutas de Jabuticabal se saturava logo, e o jeito era vender o que se podia aos revendedores, que comerciavam com São Paulo. Eles nos deixavam as caixas e nós condicionávamos as frutas. No sítio tínhamos uma grande moita de bambu. Um homem que fabricava cestos, começou a fabricá-los à meia. Os cestos eram vendidos para os pequenos produtores de café. Alguns eram usados no sítio para a colheita do nosso próprio café. A minha “tia” Galdina , era perita em torrefação de farinha de mandioca, bem torradinha e de “beiju”. Os balaios eram úteis para acomodar a farinha. Fizemos uma divulgação, verdade que muito pequena, mas a procura pela farinha do “seo” Zéca Mineiro, cresceu. Em todo esse esforço eu tive uma boa parcela de participação.
A vida na Igreja ia bem, embora não tivéssemos pastor ordenado, mas um licenciado ao Ministério, o Bacharel Hélio Cerqueira Leite. Excelente orador, de temperamento afável, solícito, bom de violão e com uma voz agradável, ele compartilhava assim o seu interesse pela mocidade. Após a sua ordenação ele foi para Itápolis, pastorear a Igreja ali.
O que fazer nesta situação? Nós, os membros da Congregação, adultos e jovens nos revezávamos na direção dos trabalhos na sede, e nas congregações de Guariba, Taquaritinga, pontos de pregação, Monte Alto, Lusitana e Fazenda São João.
Finalmente, 1947, chegou ao fim, e lá estava eu todo enfarpelado, vestido de azul marinho (casimira), gravata borboleta, recebendo numa festiva cerimônia, o meu certificado de 4ª série (antigamente “bacharel em humanidades”). Minha madrinha, a professora evangélica, D. Alice de Campos Barreto. (O terno de formatura foi presente dela).
Após a festiva cerimônia, que se prolongou pela noite à dentro com orquestra e danças para os não evangélicos, de posse do “meu tão querido e sonhado” certificado, meus pais, meus tios João Galante e Orozina (irmã do meu pai), que nos visitavam na oportunidade (residiam em Araguari, MG), e eu, retornamos ao sítio, onde, juntos e alegremente, compartilhamos uma farofa de frango, à mineira.
Diria, com a Palavra: “Até aqui nos ajudou o Senhor, Ebenezer.”

terça-feira, 24 de junho de 2008

ORE POR BEATRIZ FARIA SERVINDO O SENHOR NA ÁFRICA

Há alguns anos firmei o propósito de contribuir financeiramente para a Obra Missionária. Antes eu pensava que por não ter condições de contribuir com uma quantia relevante, não valeria a pena contribuir. Eu estava enganado. Muito enganado! Quantos missionários eu perdi a oportunidade de ajudar por pensar assim?

Na verdade sempre fui incomodado, como se uma voz estivesse sempre falando ao meus ouvidos: é preciso prestar atenção naqueles que dão a vida nos campos missionários.

Eu nunca tive a convicção de seguir esse caminho. Creio que é Deus quem capacita aqueles a quem escolhe, mas nunca me senti inclinado a ser um missionário. Porém, sempre tive a impressão que Deus queria me envolver de alguma forma em missões.

Certa vez, trocando e-mail's com um pastor muito querido, ele me disse o seguinte: "Contribuir é algo que muda a vida da gente. Muda as referências e prioridades. Altera a sensação de prazer e de realização. Subjuga o poder do Diabo como Dinheiro em nossa vida. Eleva os alvos da vida. Faz pensar nos outros; especialmente, muitas vezes, naqueles que nem conhecemos. E, entre outras coisas, nos põe no caminho da generosidade e da fé que lança o pão sobre as águas para só achá-lo depois de muito tempo... E mais, contribuir assim, ativa o princípio espiritual da Vida; pois, Vida é dádiva, é doação, é Graça."

Então, comecei a contribuir. É pouco. Sei disso. Mas a minha contribuição somada a de mais outro irmão, e de mais outro, e de mais outro... ajudam no sustento de muitos missionários.

Tenho enviado ofertas para a Missionária Beatriz Faria (foto aí em cima), e sei que Deus tem os Seus meios para multiplicar os recursos.

Se você que me lê, quiser contribuir também, se desejar, pode começar com essa serva do Senhor que vive para levar a Palavra que Liberta aos povos da África.

Seus dados:

BEATRIZ FARIA - Bradesco - Agência: 0543-6 - C. Poupança: 86589-3

Se quiser se corresponder com ela:

biafrica@hotmail.com ou biaafrica@gmail.com

Lembre-se: "Deus só pode abençoar as pessoas pelos nossos dons se os partilharmos".

segunda-feira, 23 de junho de 2008

ESBOÇO DE UMA VIDA - parte 8

Bem, o certo é que o meu relacionamento com o Dr. Brasil ficou arranhado e por isso não me senti encorajado a enfrentar a situação. Fizera a segunda série ginasial e de posse da competente transferência, fiquei de férias durante todo o ano de 1945. O tempo era ocupado com atividades na igreja, desfrutando com meu avô e com o amado irmão, Sr. Manoel Calixto (hoje centenário em Brasília), da caça e pesca, nosso esporte preferido. Outro passa tempo, talvez incompreensível para muitos, era estar na fazenda do Sr. José Alves Ferreira, Fazenda Cachoeira, bem maior que a do Monjolinho, doada a um dos genros, enquanto ali, auxiliava nas lidas da fazenda, “batendo pastos” com foice, ajudando na fabricação de tijolos (tinham uma olaria de bom tamanho na fazenda), ou, o que mais me agradava, fazer, a cavalo, o remanejo do gado nas invernadas. Tudo isso, é claro, sem nenhuma remuneração, pois o que contava era sentir o carinho e a amizade daquele ancião muito especial, o patriarca de uma grande família, como também da Comunidade Presbiteriana.
Em 1944, último domingo de julho, fiz a minha Profissão de Fé, com o Rev. James R. Woodson, o pastor que me batizou na minha infância. Tinha eu, quinze anos e tive como companheiro, o irmão Luiz Elias Ferreira, Maria Elias (a tia) e Divina Alves de Souza (nora de José Alves). Luiz Elias é hoje Presbítero Emérito da Igreja, e as duas irmãs continuam firmes na fé.
Retornando a 1945, nós temos como marco político-histórico muito importante para o Brasil, o fim do período da ditadura Vargas e inicia-se o período democrático-representativo, com a eleição do Mal. Eurico Gaspar Dutra, como Presidente da República. Neste ano de 1945, o mundo começou a desfrutar de paz, com o fim da guerra 1940-1944, e no Brasil, o novo governo e o Congresso, resolveram mudar os nomes de várias cidades brasileiras. Assim é que Pouso Alto passou a ser chamada de Piracanjuba, em virtude do Rio Piracanjuba que lhe cortava as terras.
Nosso irmão Luiz Elias Ferreira, resolveu construir a sede de sua fazenda, São Pedro. Para a realização do projeto, foi contratado o nosso irmão Sr. José Elias, querido irmão dos meus tempos de infância, seus filhos meus companheiros daqueles tempos, tinha sua equipe de pedreiros, serventes, nosso irmão Paulico, um rapaz meio simplório, o Pedrão, e o Joãozinho (filho do Sr. José Elias). Joãozinho era meu companheiro inseparável, mas durante o tempo da construção ele estaria na fazenda. Entretanto, como o serviço carecia de mão de obra, eu me ofereci para ser mais um servente. O salário era de dez mil réis por dia, mas como eu não tinha nenhuma experiência, eu me propus ganhar sete mil réis. Proposta irrecusável para a “mãozinha fechada” do “seo” Zé Elias. Foi um período duro: suprir os pedreiros (muito rápidos) de tijolos e barro, e naqueles dias era necessário cortar a madeira na mata, puxa-la com o auxílio de bois, e depois serra-la, nas proporções necessárias ao madeiramento: vigotas, caibros e ripas. Foi uma boa escola, não resta dúvida.
Nesta ocasião, meus pais tinham viajado para Campinas, SP., onde meu pai se submeteu a uma cirurgia nos olhos. De Campinas, eles foram a Jaboticabal, visitar o casal de missionários Dr. Lane e D. Mary (antigos missionários em Araguari e Patrocínio). D. Mary, ao tomar conhecimento das dificuldades que os velhos amigos Marcílio e Ninita, estavam tendo com a minha educação, influenciou seu esposo Eduardo Lane a pedir a transferência deles para Jaboticabal, porque eles estavam se aposentando e de mudança para Campinas. A Missão aprovou a indicação. De sorte que, ao retornarem à Piracanjuba, fomos impactados fortemente com a notícia, que nos deram. A Igreja ficou muito consternada, porque o relacionamento com os obreiros, e a família dos mesmos, era excelente. Meus pais, ao chegarem de Campinas se surpreenderam, por não me encontrarem em casa e, mais ainda quando souberam que eu estava trabalhando de servente de pedreiro, para o “seo” Zé Elias, na construção do Luiz Elias. Chamaram-me incontinente, porque era necessário que eu, também, tomasse conhecimento dos novos planos, os quais, certamente, determinariam mudanças sérias em nossas vidas, particularmente quando eu me sentia como “o motivo” dessas decisões. Confesso que, de imediato, resisti à idéia de mudar-me para o Estado de São Paulo. Meu avô partilhava desse sentimento, mormente porque estava de negócio quase fechado, com uma fazendola, próxima à cidade, com muita água, boas terras, e instalações muito boas e adequadas, e ele, praticamente, estava contando com a minha participação, já que o neto era o objetivo especial, daquele projeto.
Em janeiro de 1946, nos transferimos de Piracanjuba, Goiás, para Jabotical, São Paulo, após uma despedida embebida em lágrimas e muito pesar. Como é preciosa a amizade cristã, quando legítima e autêntica. A distância agora era grande, mas a amizade nutrida e fortalecida ao longo de tantos anos, permaneceria firme, até os dias atuais.
Partimos nós, deixando para trás amigos mais queridos que irmãos, inconsoláveis e não entendendo a razão de ser dessa abrupta mudança. Entretanto, a Palavra nos declara: “Os meus pensamentos e os meus caminhos, são mais altos que os vossos caminhos e pensamentos”.
Entregamo-nos, simplesmente, às mãos da Providência.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

ESBOÇO DE UMA VIDA - parte 7

A congregação em Ipameri desfrutava de momentos felizes e promissores, o ambiente era agradável e solidário. Grandes e duradouras amizades, algumas antigas desde os tempos de Araguari, como o Sr. Armando Carneiro de Castro, tio dos Revs. Saulo de Castro e Wilson de Castro. Uma sua nora, viúva do Delermano, D. Guilhermina Carneiro Vaz, mãe de numerosa família, era uma mulher extraordinária. Crente fiel, ativa, generosa e liberal, desfrutando de recursos financeiros razoáveis, era proprietária de uma padaria e também uma fazenda para o norte do estado. Ela e minha mãe tornaram-se excelentes amigas, ambas haviam nascido no dia trinta de dezembro de 1900. Três de seus filhos foram meus colegas de admissão e primeira série, o Zé Vaz e a Dalva e a Lindomar (Fia).
Porém, o ano de 1943 trouxe novamente mudanças no plano educacional, com a transferência de meus pais, acompanhados, como sempre, dos meus avós, para Pouso Alto, ponto de referência nas mudanças do contexto de nossa família. Eu não os acompanhei, permaneci em Ipameri, desfrutando da hospitalidade de D. Guilhermina (D. Lilica). Os seus filhos José Carneiro, Dalva, Lindomar, Antônio (o Fifa) e Nanci (a Titã) e o Armando (o Zizito), em quarenta e três, foram para o Instituto Gamon, de Lavras, MG. Com a ausência deles, a minha situação ficou complicada, pois não dispondo de meios, não tive como adquirir o material escolar. Eu me beneficiara, sempre, compartilhando dos livros dos Carneiros Vaz.
Depois de alguns dias, eu decidia deixar o colégio, e por cerca de três meses, comecei a lidar na padaria, aprendendo logo o serviço de mesa, mas o que me deliciava era a oportunidade de conduzir o carrinho puxado a animal, para a entrega dos pães. O padeiro que trabalhava, também nesta entrega, fora acidentado e eu o acompanhava dirigindo o carro. Foi uma experiência agradável, mas os estudos abandonados.
Comuniquei aos meus pais a situação, e eles compreensivos, autorizaram o meu retorno ao lar. Retornar a Pouso Alto foi muito gostoso, pois tinha ali bons e queridos amigos da minha infância. Integrei-me logo no seio da mocidade, participei do pequeno coral, integrei, também, o Esforço Cristão, sociedade que aglutinava homens e senhoras, e entre ele um adolescente de quinze anos incompletos. Neste período, trabalhei como “amanuense” da Coletoria Municipal, no recadastramento dos contribuintes, aproveitando o racionamento do sal. Era ocasião da guerra. Muitos criadores declaravam uma quantidade de animais, muito aquém do que realmente possuíam. Agora, a coisa mudara, porque com o racionamento, cada proprietário receberia uma quota, aquém do necessário. A Prefeitura, desta maneira, atualizando o cadastro, fez novos lançamentos, o que aumentou a arrecadação para o ano de 1944. Mas o serviço foi concluído e eu fiquei desempregado. Porém, como a Prefeitura acabara de construir o novo grupo escolar e não tinha mão de obra para o assentamento dos vitrais, o meu pai que entendia do assunto e que estava colaborando como Tesoureiro da Prefeitura, substituindo um tesoureiro corrupto. Meu pai media, cortava os vidros, preparava a massa de fixação dos vidros, e preparou uma equipe para o assentamento, inclusive o filho, que além do serviço, ficou encarregado do apontamento, que avaliava o rendimento de cada um. O pagamento era proporcional ao rendimento de cada um, dada a urgência da obra. A vida é assim, de amanuense escrevendo a máquina e a mão, para vidraceiro sujo de maça e dente.
Finalmente, em 1944 o Rev. James Woodson, ofereceu-me uma meia bolsa, para o Couto Magalhães, em Anápolis, GO. A bolsa era restrita ao ginásio, mas não abrangia o internato, cama e mesa. Comecei uma outra fase de ocupação: a faxina da escola, o cuidado com os banheiros masculinos. Imaginem, o que a acontecia: meninos do primário, de lugares longínquos de Goiás, ao ponto de que nunca tinham usado uma privada patente com descarga, faziam suas necessidades, então, no piso do banheiro e eu tinha que limpar e lavar tudo. O estomago ficava todo embrulhado, porém, nunca me queixei, e nem comentei com meus pais.
Neste contexto, cumpre-me uma confissão inevitável, apesar de uma razoável aplicação pregressa, eu nunca fora um exemplo de comportamento. Vivia costumeiramente de arrepio com a disciplina escolar. Não era malcriado com os professores, nem briguento, mas achava-me o palhaçinho da classe, e reinava para valer. Quantas vezes, experimentei o desprazer de ficar de joelhos, sobre grãos de milho, na sala da diretora D. Iolanda, uma professora muito distinta, porém, da velha guarda. “A letra com sangue entra!”
Contudo, pelo fato de estar, agora, longe de casa, no internato, e tendo que trabalhar naquele custoso serviço, já referido, o meu temperamento extrovertido, moleque mesmo, foi arrefecido. Com isso, encarei seriamente os estudos, o serviço, já que o exílio tinha por objetivo definido: estudar. De sorte que, ao receber o primeiro boletim mensal, fiquei alegremente surpreso, com as notas e especialmente, pelas observações: Aproveitamento: ótimo; Comportamento: ótimo. Meus pais, ao receberem o Boletim, escreveram-me, cumprimentando-me pela vitória, inclusive o meu pastor Rev. James Woodson.
Esta experiência positiva, à partir daí, determinou uma mudança radical no meu comportamento. Tanto assim, que depois de dois meses, o Prof. Brasil, promoveu-me a auxiliar de disciplina do colégio, integrando-me à equipe, por ele escolhido, para tal fim. Sentir-me útil e responsável foi muito gratificante, os resultados acompanharam-me para sempre, e nunca mais fui castigado por indisciplina. Passei a ver os meus professores como bons e respeitáveis amigos e fui recompensado pela estima deles.
Todavia, algumas atitudes do diretor, apesar de espontâneo e às vezes brincalhão, eram incompreensivelmente autoritárias e arbitrárias. Naquele tempo, quiçá, muito preocupado com dinheiro. Tanto assim, que para ter espaço à mesa do refeitório, tive que cuidar da alimentação, procurando a pensão de D. Tia Couto (abençoada irmã que me tratou mais como filho do que freguês); quanto ao dormitório, no velho salão de culto presbiteriano, passei a dormir numa dependência inacabada, nos fundos do terreno, compartilhando com o “marceneiro”, João Alvim, um espaço nas dependências da sua oficina.
Surpreenderam-se comigo, pois somente, agora, quando comecei a alinhavar estas memórias é que me conscientizei de que tendo o curso ginasial, já coberto pela bolsa oferecida pelo Rev. James Woodson, e não me alimentando e nem mais dormindo no dormitório, eu continuei com aquelas atividades que complementariam as minhas despesas. Só hoje é que eu me dei conta do acontecido. Contudo, dou graças a Deus por tudo.

terça-feira, 10 de junho de 2008

ESBOÇO DE UMA VIDA - parte 6

Retornamos a Pouso Alto, e neste retorno minha avó Isollina Goulart, estava conosco.
Resolveu-se fazer uma pintura e reforma nas acomodações reservadas para uso do obreiro e sua família. O que nos levou de volta à Fazenda Monjolinho. Em Araguari, meu avô liquidou os negócios, vendeu a fazenda, o gado e aplicou o capital numa Casa Bancária, na transação da fazenda recebeu uma boa casa residencial bem alugada. Era casa adequada ao comércio, o que lhe permitiu de imediato um inquilino que lhe pagou um aluguel razoável, para aquele tempo.
Zéca Coelho, apenas não vendeu um cavalo marchador, um baio, com que presenteara a esposa. Seguiram, os dois, por estada de ferro, até Pires do Rio, de onde a cavalo seguiu para Pouso Alto. Nunca me esquecerei daquela tarde, quando meu avô, todo empoeirado, chegou a Fazenda Monjolinho, do irmão José Alves Ferreira, montando o baio de minha avó. Era tempo, ainda, da moagem de cana.
Poucos dias após a chegada do meu avô, retornamos à cidade, pois meu avô alugou uma casa grande, que nos acolheu a todos comodamente.
Em Pouso Alto comecei a estudar. Já fora alfabetizado por minha mãe. Passei pelo grupo escolar da cidade, dirigido por uma diretora carola. Não demorou muito, depois de uma violenta agressão praticada contra mim, levei uma canivetada, a diretora simplesmente pediu a meu pai que me tirasse da escola. Daí, fui estudar com D. Nházica, uma professora particular, de poucos recursos, membro da Igreja, e que ainda usava a palmatória. Depois, como duas irmãs abriram uma escolinha, na casa da mãe delas, passei um período sob a tutela delas. O que foi muito bom. Ambas evangélicas, assim como toda a família, fruto do trabalho do meu pai.
Ao final do ano de 1935, o Rev. David, avaliando os resultados do trabalho realizado, por Marcílio e Gersonita, aconselhou-os a fazerem o curso de evangelista, no Instituto Bíblico de Patrocínio, MG. A Missão providenciou e subsidiou tudo. Assim, no começo de 1936, mudávamos todos nós para Patrocínio. Desta vez o cavalo baio de minha avó, não nos acompanhou. Foi necessário vende-lo. Até o meu jumentinho, presente do meu avô, foi vendido.
Os anos de Patrocínio passaram rápidos, mas felizes e abençoados. Matriculou-me na Escola Erasmo Braga, da Igreja. Aí, sim, tive professores qualificados e competentes, autênticas, servas do Senhor. Ali fiz, oficialmente, porque a escola era reconhecida, os 1º e 2º anos primários. Preciosas amizades se desenvolveram nesse período. Colegas da escola e companheiros da Escola Dominical. Um dos bons colegas, e companheiro de infância, foi o Joãozinho Lane, filho do Dr. Eduardo e D. Mary. Jogávamos bolinha de gude, peão, fazíamos nossas artes juvenis, e ele me ensinou a andar de bicicleta, ele e o irmão mais velho, Eduardo, estudante em Lavras.
Terminando o curso no IB, meu pai foi solicitado a administrar a construção de acréscimo a um dos prédios, bem como da reforma do telhado das instalações centrais. De novo a velha profissão de Mestre Carapina, foi útil, mas ficamos retidos em Patrocínio, durante todo o primeiro semestre de 1938, porque o tempo chuvoso atrapalhou a marcha das obras.
Entra em cena, novamente, o nosso Rev. David, nosso amigo do coração. Marcílio e Ninita, agora, estavam sendo convocados, para colaborarem com a Igreja de Araguari e seu campo. Fomos residir com os meus avôs, na residência deles, até que a Igreja adquirisse uma nova casa pastoral, para onde os missionários se mudaram, e nós fomos para a velha casa pastoral, muito grande, confortável, acolhedora e com o quintal enorme, com muitas árvores frutíferas. Que saudade daquela casa da rua Bueno Brandão.
Fui matriculado numa escola particular, porque no grupo escolar, sendo já meados de 1938, não havia como me receberem.
A Professora Estherzinha Goulart, prima de Gersonita, gozava de excelente conceito na escola, apesar desta ter uma forte orientação católica. O certo é que a minha base adquirida permitiu-me no período de segundo semestre de 1938 ao fim de 1939, fazer o terceiro ano, o quarto ano e o admissão. Com resultados mais que satisfatórios, com a observação: “plenamente aprovado”.
Concluindo o primário, feito o admissão ao ginásio, não houve condições para ingressar no ginásio. Em Araguari, os padres absorveram o sistema, logo só evangélicos com disponibilidade econômica, eram recebidos no Regina Pacis. E, como o Rev. David estava sendo transferido para a Igreja de Uberlândia, meus pais passaram à discrição de Missão, que os encaminhou para Estrela do Sul, localidade onde meu pai Milburges e minha madrasta e meus irmãos, meus avós maternos Vicente e Maria Augusta, minhas tias, tios e mais familiares do clã espanhol, não evangélicos, residiam. Foram dias alegres e felizes, mas curtos, porque um dos obreiros da Missão, evangelista em Ipameri, GO., não estava desfrutando de saúde, em virtude do clima lhe ser insalubre. Resultado... Lá fomos nós em julho de 1941, para Ipameri. O período de Estrela do Sul foi ameno, feliz e próspero para a Igreja, e nós, cercados pelo carinho e solicitude dos familiares, deixamos Marcílio e Gersonita incomodados com um sentimento de que esta atual transferência, não era muito justa. Entretanto, obedientemente, entregou-se nas mãos do Deus Eterno, e foram para Ipameri, GO.
De nada adiantou a permuta, pois o evangelista não se aclimatou a Estrela do Sul e não pôde permanecer ali. No momento, meus pais pensaram que tinha sido inútil a nossa mudança.
Já mencionei que após o admissão em Araguari, não tive como continuar, porque os evangélicos pobres eram discriminados pelos Padres, proprietários do Regina Pacis.
Pois bem, em Ipameri, nossa irmã D. Catharina Daher, professora do ginásio municipal, aconselhou a meu pai, matricular-me no ginásio, para aproveitar o semestre, no admissão, porque o curriculum tinha alguma diferença do curriculum de Minas Gerais. Foi uma decisão acertada e no começo de 1942, lá estava eu, finalmente, cursando a primeira série ginasial.

domingo, 1 de junho de 2008

ESBOÇO DE UMA VIDA - parte 5

A chegada a Pouso Alto foi inesquecível. Os irmãos da pequena comunidade Presbiteriana nos aguardavam carinhosamente hospitaleiros. A mudança foi descarregada e acomodada numa das dependências do templo, cuja área residencial ainda estava ocupada pela família do antigo obreiro.
Como não havia uma residência urbana, fomos, por cerca de três meses, acolhidos na fazenda do Sr. José Alves Ferreira e D. Benedita Alves de Souza, cerca de três quilômetros da cidade. Para quem saíra da zona rural, em Araguari, nos foi gratificante aquele tempo na Fazenda Monjolinho.
“Tu serás uma bênção”, disse o Deus Eterno a Abraão.
Meus pais, na humildade deles, foram ricamente abençoados no relacionamento com os irmãos, os interessados, e moradores da cidade. O trabalho cresceu em número e na qualidade da vida cristã, e muitos simpatizantes acabaram por se decidirem pelo Evangelho. O Salão de cultos precisou ser aumentado mais que o dobro. O ofício antigo, de carpinteiro, foi de grande valia, porque meu pai arregaçou as mangas, pegou no serrote e no martelo, e o madeiramento ficou pronto e muito bem feito, o tempo não tirara o extra de Marcílio, o carpinteiro. O crescimento do trabalho incrementou-se de tal maneira que os irmãos, inclusive meu pai, se arrependeram de não terem feito um aumento maior. “A Igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número.” (Atos 9:31). “A Igreja tinha paz”. Alguns incidentes, que não vem ao caso aqui relatar, haviam abalado um tanto, a comunhão entre os irmãos. Todavia, a postura equilibrada, saudável e pacificadora, dos novos obreiros, lhes garantiu o respeito de uns e de outros. O antigo obreiro se envolvera com a política da terra, que naqueles dias, era violenta. Tempos da ditadura Vargas, e em Goiás a disputa pela preeminência política entre as forças políticas da época. A beligerância entre elas chegava às raias do absurdo. Perseguições, emboscadas e assassinatos. O prefeito oposicionista ao Governo da época, um bom e humanitário médico, Dr. Manuelito, foi vítima por duas vezes. Uma delas, durante nossa permanência na cidade. Meu pai foi procurado pelas lideranças, de um lado e do outro, a fim de que ele aceitasse a Prefeitura, pois segundo eles, meu pai tinha todas as qualidades necessárias e indispensáveis, para promover a paz e a concórdia entre as lideranças políticas. “Bem aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”.
A Missão Oeste do Brasil, que liderava a obra evangélica dos presbiterianos, no Brasil Central, e coordenadora do Instituto Bíblico de Patrocínio, anualmente, realizava em Patrocínio uma convenção, visando adequar as lideranças leigas, da região eclesiástica, às necessidades dos trabalhos eclesiais, como um todo, especialmente com o desenvolvimento pela Escola Dominical.
O que tem essa programática da Missão, com o esboço de minha vida?
Meus pais convidaram o irmão José Alves Pereira e a seu filho João Alves de Souza, a irem com eles para Patrocínio para participarem da Convenção, mas antes, a passarem em Araguari para visitarem os velhos Zéca Coelho e Isolina Goulart.
Já mencionei que vivíamos no tempo da ditadura Vargas, tempo de abusos inomináveis por parte das autoridades policiais. Os delegados, militares, muitos deles não passavam de “jagunços” (pistoleiros), uniformizados a serviço dos “chefetes políticos”, que por qualquer motivo, os mais comuns e não planejados, prendiam, submetiam a humilhações e espoliações. O carvoeiro do meu avô, entregando lenha na cidade, por infelicidade esbarrou no carro do prefeito, sem, contudo, causar-lhe nenhum arranhão. O carvoeiro, apelidado Neném, verificando não ter danificado o carro, e sem saber que era o carro do prefeito, (o médico que atendeu minha mãe e me trouxe a luz), retornou a fazenda. Mas, ali não chegou porque alguém havia comunicado à polícia que o alcançou antes de sair da cidade. Prenderam-no e abandonarão o carroção e os bois a deriva. Até que um morador daquele local, amigo do meu avô, conduziu o carroção até a fazenda. Alguns minutos após tudo isso ter acontecido, o delegado, Tenente Leôncio, acompanhado de dois soldados, chegaram e foram invadindo a residência. Teve aí, o início a sessão dos horrores. Meu avô teve que se vestir convenientemente, enquanto isso, brutalmente procuravam por dinheiro e jóias, rasgaram colchões, seqüestraram uma espingarda de pequeno calibre, e levaram meu avô e o trancafiaram na cadeia, depois de o acariciarem com sopapos e borrachadas. E ele, coitado, sem saber de nada. Enquanto isso o genro que deixara os irmãos de Pouso Alto na fazenda do avô, estava na cidade e ignorava o que estava acontecendo.
Na fazenda, um quadro de desolação, minha avó e mãe entraram numa crise nervosa profunda. Nossos irmãos visitantes estavam profundamente chocados e constrangidos com tudo aquilo. Felizmente, meu pai chegou da cidade, ele estava a cavalo. Tomando conhecimento das coisas, incontinente, a galope, retornou a cidade, indo diretamente ao Prefeito, que não autorizara aquela incursão e nem tomara conhecimento do ocorrido com o seu carro. De imediato, escreveu uma ordem de soltura para que meu avô fosse imediatamente liberado. Vovô foi solto, mas a velha espingarda não foi devolvida, nem queriam devolver o seu relógio de bolso, os seus óculos de aros de ouro, e vinte e cinco mil réis achados no bolso do meu avô. Os objetos acabaram sendo devolvido, graças à intervenção de meu tio Weiller Galante (o Nhônhô), irmão de minha mãe Camélia, e amigo do prefeito. Menos os vinte e cinco réis, valorizados naquele tempo.
A partir desses fatos dolorosos, meu avô, mineiro a antiga, só pensava em vender a fazenda e acompanhar o genro e a filha, mudando-se para Pouso Alto. Meu pai e os irmãos do Pouso Alto seguiram para Patrocínio e participaram da Convenção. (Participavam do evento muitos conferencistas de fora, missionários e pastores nacionais, líderes e educadores). Enquanto isso, minha mãe, avó e uma irmã de criação de minha mãe, a dedicada Tia Galdina, preparavam as coisas que seriam levadas na mudança. Muita coisa ficou para trás. Vovô encontrara logo um comprador que ofereceu um preço abaixo do mercado, mas o velho Zéca não queria permanecer por mais tempo em Araguari, depois de tudo o que sofrera.